Não é que essa pessoa tenha morrido ou mudado pra muito longe ou esteja perdida e você pede pra colocar a foto dela numa caixinha de leite e alguém liga e diz: __ oi, é daí que perderam um cara assim e assim? Acho que ele ta aqui do meu lado.
É mais como se você soubesse que aquela pessoa simplesmente não faz mais parte de sua história, como se ela tivesse se transformado em um livro que você leu a muito tempo. E um dia ao reencontrar uma amiga distante, ela te mostra o álbum do casamento dela há cem anos atrás, e lá está à pessoa que já não existe mais, postada ao seu lado, com um terno alugado e cara de quem tá louco pra sair dali e tomar uma cerveja. E isso te faz recordar tudo daquele episódio, até alguns diálogos surgem bem decorados em sua mente, mas é uma lembrança diferente. Uma lembrança que não comove mais. Não dá raiva, medo, insegurança, saudade, nada. Sei lá, talvez uma foto do Hedge Leather todo feliz da vida te traga mais emoções do que a da pessoa que deixou de existir: ___ nossa!Era um ator tão bom, fez um ótimo coringa, era lindo, tinha uma filhinha, ta tão feliz aqui nesta foto ó! E morreu.
Acontece que a lei da equivalência parece reger também estas questões de relacionamento, e quando uma pessoa deixa de existir na sua vida outra necessariamente deve surgir no lugar desta. Sua vida só recupera o equilíbrio quando este lugar é ocupado. Se em uma série de TV um dos atores principais acabasse despedido as opções dos produtores seriam estas:
“Podemos por fim a serie.”
“Podemos contratar um ator bem parecido e fingir que nada aconteceu”
“Podemos mandar o personagem estudar artes em Londres e criar um completamente novo, o extremo oposto do anterior.”
Raramente as duas ultimas funcionam pra series de tv. O público acaba não engolindo, a coisa perde a graça e os executivos a cancelam do dia pra noite. Mas na vida real eu diria que as opções dois e três deveriam ser as únicas consideradas. Mesmo sabendo o que aconteceu em seu último relacionamento, tanto de bom quanto de ruim, aquela falta de comoção diante das lembranças garante que você tenha coragem pra tentar de novo, e de novo, e de novo algo igual ou diferente, de ponta cabeça, na ponta dos pés, com a bunda no chão, ajoelhada no oratório da igreja. Tanto faz.
E se um dia por acaso você encontrar a tal pessoa que deixou de existir andando por ai como gente que ainda exista:
___oi.
___oi.
___quanto tempo.
___é, bastante.
___você ta ótima.
___valeu.
___agente se esbarra por ai.
___é. Até mais.
___foi bom te ver.
___ (sorrisinho por educação) até mais!
Nenhum comentário:
Postar um comentário